Cinemas do Recife


Saudade dos cinemas do Recife
 
 
 
Era uma criança ainda, quando comecei a freqüentar os cinemas do Recife. Grandes, para uma criança, e belos, para todos. Dia de domingo numa cidade cercada pelo mar muitas vezes resumia-se para mim a praia pela manhã e cinema ao fim da tarde. Um deles era o Cine Veneza, localizado na Rua do Hospício. E foi nele que assisti em 1986 à minha primeira sessão de cinema, com o filme "Rock estrela". O cine Veneza funcionava desde 1970, sendo até o final da década seguinte um dos melhores da cidade, em termos de conforto e som. Ele possuía aquela áurea acolhedora, com um tapete vermelho cobrindo inteiramente o estabelecimento (um paraíso para os ácaros e tormento para os alérgicos). No primeiro andar possuía uma espécie de sala de espera com sofás e algumas cabines para que os casais pudessem ficar mais a vontade, também no estilo vermelho paixão. Ninguém nem observava que acima do cinema havia um prédio inacabado, com janelas escuras de concreto, pois o que havia lá dentro era puro glamour.

Outro que eu freqüentava era o São Luiz, imenso em sua profusão de estilos diferentes. Era de uma linguagem visual confusa, porém bela, com as luzes dos vitrais (uma flor de lis) acendendo antes de iniciar a sessão. Na sala de espera, um belo painel pintado por Lula Cardoso Ayres e no primeiro andar mais cadeiras e sofás para a socialização antes e após os filmes. Dizem que quando suas portas foram abertas, em 1952, as pessoas iam elegantíssimas assistir aos filmes, afinal, o luxo do local exigia uma apresentação a rigor: mulheres vestidas e usando luvas (no calor de Pernambuco) e homens de terno. Quando eu o freqüentei, em meados da década de 90, o glamour já estava há tempos extinto, o primeiro andar fechado com correntes, pois era impossível lotar um cinema com mais de mil lugares e os freqüentadores resumidos a policiais, estudantes e um ou outro passante do centro.

Havia ainda o Art Palácio (que exibia filmes dos Trapalhões), Art Boa Viagem (feíssimo e pouco freqüentado), Cine Moderno (hoje ostentando uma loja de eletrodomésticos) e o Trianon: hoje lendas de um Recife quase esquecido. Os multiplexes chegaram com tudo, anunciando uma morte lenta aos velhos cinemas da velha cidade. O centro não possui mais uma boa sala para os cinéfilos.

Com a tecnologia, modernidade, segurança e praticidade dos shoppings não havia como competir. A eterna luta do novo com o velho. Venceu o novo. Ficaram as lembranças. Nada contra a evolução trazida pelo que surge, a praticidade da compra com antecedência, a escolha entre 10 salas de cinema, o som quase perfeito de algumas. Chama-se isso de evolução, e não há saída. Mas, por outro lado, ver morrer uma sala de cinema é como ver parte de nossa memória que permanecia viva indo embora.

Hoje ainda freqüento os cinemas, ao final da tarde, sem aquele romantismo de outrora. Vejo bons e maus filmes, mas também quase não lembro da magia que era antigamente me preparar para ir vê-los. Tudo mecanizou-se. O que me desperta para o passado é passar pelos velhos prédios e ver que eles permanecem ali, ainda, como chagas abertas de algo que nunca mais voltará.
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